A auditoria de projetos sociais foi um dos temas levados pela R&R ao FIFE 2025. Na ocasião, Régis Ferreira apresentou a palestra “Auditoria de projetos sociais: uma visão da auditoria financeira e finalística”, colocando em discussão uma questão central para organizações que administram recursos destinados a finalidades sociais: não basta demonstrar quanto foi gasto. É preciso relacionar recursos, controles, execução e resultados.
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Esse ponto ajuda a entender por que a auditoria de projetos sociais precisa ir além da conferência de documentos financeiros. O trabalho pode envolver a análise de informações, processos, controles e evidências relacionadas à utilização dos recursos e à execução das atividades previstas.
Projetos sociais transformam recursos em atividades que precisam gerar resultados concretos. Para que isso aconteça com segurança, não basta acompanhar quanto foi recebido e quanto foi gasto.
Também é necessário avaliar se os recursos foram aplicados de acordo com o planejamento, se os documentos sustentam as operações realizadas, se os controles funcionam adequadamente e se a execução do projeto corresponde aos objetivos e metas estabelecidos.
O que é auditoria de projetos sociais?
A auditoria de projetos sociais envolve a análise independente de informações, documentos, processos e controles relacionados à utilização dos recursos e à execução das atividades previstas.
O escopo pode variar de acordo com as características do projeto, o contrato ou instrumento firmado, as exigências do financiador e a finalidade do trabalho.
Em uma análise financeira, por exemplo, o foco pode envolver receitas, despesas, documentos comprobatórios, movimentações bancárias, registros contábeis e aderência ao orçamento aprovado.
Já uma abordagem voltada à execução do objeto procura relacionar a aplicação dos recursos às atividades, metas e resultados previstos para o projeto.
Essas duas dimensões são complementares.
Auditoria financeira: para onde foram os recursos?
Uma das primeiras perguntas de uma auditoria é se os recursos utilizados no projeto podem ser adequadamente identificados e comprovados.
Isso exige rastreabilidade.
Entre os pontos normalmente relevantes estão:
- origem dos recursos;
- movimentação financeira;
- documentação das despesas;
- classificação contábil;
- aderência ao orçamento;
- conciliações bancárias;
- pagamentos realizados;
- critérios de rateio, quando aplicáveis;
- saldos existentes;
- recursos vinculados ao projeto.
O objetivo não é apenas conferir documentos isoladamente. É compreender se existe coerência entre orçamento, movimentação financeira, documentos e registros contábeis.
Execução financeira e execução do objeto precisam conversar
A ideia apresentada no FIFE de combinar uma visão financeira e finalística ajuda a mostrar por que analisar somente a movimentação financeira oferece uma visão incompleta.
É necessário relacionar os recursos utilizados às atividades que deveriam ter sido executadas.
Nas parcerias regidas pela Lei nº 13.019/2014, por exemplo, a prestação de contas é orientada pela avaliação da execução do objeto e do alcance das metas estabelecidas. Na regulamentação federal, o Decreto nº 8.726/2016 prevê informações relacionadas ao alcance das metas e às ações desenvolvidas.
A pergunta deixa de ser apenas “o dinheiro foi gasto corretamente?” e passa também a considerar “o que foi realizado com esses recursos?”.
O plano de trabalho é uma referência essencial
Antes de analisar a execução, é necessário compreender aquilo que foi planejado.
Objetivos, atividades, metas, indicadores, cronograma e orçamento estabelecem referências para o acompanhamento.
Quando essas informações estão bem estruturadas, torna-se mais fácil comparar planejamento e realização.
Uma auditoria pode identificar, por exemplo, diferenças entre o cronograma previsto e a execução, despesas que não encontram correspondência clara no orçamento, alterações que não foram adequadamente formalizadas ou dificuldades de demonstrar determinadas metas.
Documentação não é apenas uma exigência burocrática
A documentação cria evidências.
Notas fiscais, contratos, comprovantes de pagamento, relatórios, listas de presença, registros das atividades e demais documentos ajudam a demonstrar o que aconteceu durante a execução.
Uma boa prática é estabelecer desde o início quais evidências precisam ser produzidas e armazenadas.
A qualidade documental também está diretamente relacionada à governança contábil no Terceiro Setor, porque depende da existência de responsabilidades, processos e controles definidos.
Quais fragilidades costumam exigir atenção?
- despesas sem identificação clara do projeto;
- documentação incompleta ou apresentada com atraso;
- divergências entre planilhas, extratos e contabilidade;
- critérios de rateio sem documentação;
- alterações de orçamento sem registro adequado;
- metas sem evidências suficientes;
- saldos financeiros que não coincidem com os controles do projeto;
- ausência de conciliações periódicas;
- concentração de aprovação, pagamento e registro na mesma pessoa;
- prestação de contas preparada somente após o encerramento do projeto.
A existência de um desses pontos não significa, por si só, que houve irregularidade. Ela indica, porém, uma área que pode exigir análise e melhoria de controles.
Prestação de contas deve ser construída durante a execução
Um erro recorrente é tratar a prestação de contas como uma atividade que começa quando o projeto termina.
Na prática, ela começa no primeiro dia.
Cada contratação, pagamento, atividade realizada e alteração de planejamento gera informações que poderão ser necessárias posteriormente.
Por isso, uma rotina consistente deve conectar planejamento, execução das atividades, orçamento, financeiro, documentação, contabilidade e monitoramento das metas.
Contabilidade também faz parte dessa estrutura
Entidades sem finalidade de lucros devem manter contabilidade regular e observar as Normas Brasileiras de Contabilidade aplicáveis.
A ITG 2002 (R1) é a norma específica das entidades sem finalidade de lucros.
Nos projetos sociais, isso é especialmente relevante quando existem diferentes fontes de recursos, atividades e restrições de utilização.
Qual é o papel dos controles internos?
A auditoria avalia informações e evidências existentes. Mas a qualidade dessas informações depende dos processos adotados diariamente pela entidade.
Por isso, controles internos são fundamentais.
Entre eles podem estar definição de responsáveis, segregação de funções, aprovação de despesas, conciliações, controle documental, acompanhamento orçamentário, revisão dos relatórios, monitoramento das metas e tratamento de pendências.
O que a auditoria agrega ao projeto?
Uma análise independente permite observar o projeto por uma perspectiva diferente daquela das equipes que participam diretamente de sua execução.
Isso pode contribuir para identificar inconsistências, fragilidades de controles, riscos ou oportunidades de melhoria que não são facilmente percebidos na rotina.
Dependendo do escopo contratado, o trabalho pode apoiar a administração, conselhos, financiadores e outras partes interessadas na avaliação da qualidade das informações apresentadas.
A auditoria, porém, não substitui a responsabilidade da administração pela execução, pelos controles ou pela prestação de contas.
Auditoria de projetos sociais também protege a continuidade da missão
A discussão levada por Régis Ferreira ao FIFE 2025 reforça uma ideia simples: recursos e resultados precisam ser analisados de forma conectada.
Demonstrar de maneira clara como os recursos foram utilizados e quais atividades foram realizadas é parte da responsabilidade de uma organização perante financiadores, parceiros, órgãos públicos, conselhos e sociedade.
Quanto mais estruturados estiverem os processos de controle e prestação de contas, menor será a dependência de correções emergenciais ao final dos projetos.
A R&R Auditoria atua em auditoria independente e trabalhos específicos, apoiando organizações do Terceiro Setor na avaliação de informações, controles e riscos relacionados à gestão e à prestação de contas de seus projetos.



